Alimentos Sazonais — Couve

Hoje no Alimentos Sazonais, falamos de um alimento que, embora tão enraizado na nossa cultura, nem sempre está tão presente na nossa mesa quanto deveria: a couve. Assim, neste artigo centrámo-nos em duas particularmente ricas em saúde e em cultura, a couve-galega e a couve portuguesa.

As couves figuram na alimentação dos povos desde as primeiras civilizações, como os cartagineses, que povoaram a Bacia do Mar Mediterrânico, passando pela Roma Antiga e até à Alta Idade Média. Até ao século XVIII, e durante anos de história, as couves eram associadas à alimentação das classes socioeconómicas mais desfavorecidas, particularmente dos camponeses, o que, ironicamente, contrasta com a sua riqueza em termos nutricionais.

Em Portugal, as couves ocupam um lugar muito especial na alimentação, sendo figuras centrais de algumas ocasiões festivas. Vejamos a couve-galega, ingrediente central do tão português caldo verde. Ao caldo verde associam-se os santos populares e também uma identidade (recordemos a Casa Portuguesa cantada por Amália Rodrigues em que “uma existência singela… é só amor, pão e vinho, e um caldo verde, verdinho a fumegar na tijela”).

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No caso da couve portuguesa, ou tronchuda, o seu lugar de destaque é ao lado do bacalhau, na noite da Consoada, regada com azeite.

Contudo, o valor nutricional das couves motiva o conselho para que as coma durante todo o ano. De uma forma geral as couves apresentam um baixo valor energético (ou seja, têm poucas calorias) e são uma excelente fonte de vitaminas, minerais e fibra. A fibra, como sabido, desempenha um papel fundamental no bom funcionamento gastrointestinal, tendo ainda efeitos benéficos na saúde cardiovascular, nomeadamente nos níveis de colesterol.

No caso das vitaminas destaca-se o excecional conteúdo em vitamina C (com papel no fortalecimento do sistema imunitário) e em vitamina A (muito mais do que seria de esperar de um hortícola não alaranjado), sendo ainda de referir vitaminas do complexo B (como o ácido fólico) e também a vitamina K (importante na coagulação sanguínea).

Nos nutrientes destaca-se o ferro, o potássio e sobretudo o cálcio (a couve-galega, por exemplo, tem o dobro da quantidade do cálcio do que o leite, embora uma pequena parte não seja absorvida).

As couves possuem ainda outros importantes compostos como os fitoquímicos, dentro dos quais se distingue a elevada concentração de glucosinolatos (como os isotiocianatos e os indóis), que têm evidência comprovada ao nível da diminuição do risco de alguns tipos de cancro (como o cancro do cólon) e também de carotenoides, com potencial antioxidante e efeito protetor em doenças como a aterosclerose, a doença cardiovascular e as cataratas.

Relativamente ao seu consumo propriamente dito, e sendo verdade que a culinária e os processos de cozedura destroem uma grande parte dos compostos benéficos da couve, cozê-la ao vapor ou consumi-la em sopas (já que consome a água de cozedura) são duas das formas ideais para a incluir na sua alimentação.

Terminamos com um trecho do texto “O elogio da couve portuguesa”, escrito por José Saramago em 1996. “A notícia correu o país inteiro (…) uma couve portuguesa plantada na Austrália atingiu 2,40 metros de altura (… ) e continua a crescer (…) a couve portuguesa mostra ao mundo as nossas raras qualidades de adaptação, o nosso universalismo, a nossa vocação de grandes viajantes. E continua a crescer”.

Não deixe, como se costuma dizer, os créditos por mãos alheias, se as couves são nossas então sejamos nós os maiores beneficiários do seu potencial.

 

Inês Pádua (Nutricionista)
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